quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O consumismo inconsciente das crianças


“Lacan assume que o inconsciente se estrutura como uma linguagem, como uma cadeia de significante latente que se repete e interfere no discurso efetivo, como se houvesse sempre, sob as palavras, outras palavras, como se o discurso fosse sempre atravessado pelo discurso do Outro, do inconsciente.” - Fernanda Mussalim (2006)

“Vivemos fazendo e ouvindo discursos. Muitos deles desiguais, superiores, repressores. “A classe dominante, para manter sua dominação, gera mecanismos que perpetuam e reproduzem as condições materiais, ideológicas e política.” - Althusser (1970).

A prática social, através dos aparelhos ideológicos, carrega em si a desconstrução de um modelo de representação de valores e poder em cima das classes menos favorecidas. Daí a relevância de se estudar gêneros textuais específicos da mídia, como a propaganda para o público infantil, que pode ser argumentada pela condição promocional da cultura contemporânea, que estabelece uma estreita ligação entre a publicidade, valores sociais e o papel ideológico da mesma. A propaganda possui um discurso persuasivo, tentando manipular as pessoas, nesse caso as crianças, para comprarem um estilo de vida além de sua realidade.

Atualmente é nítido o desinteresse das crianças por aquilo que lhes seria genuíno; O brincar passa a ser um hábito e o consumo exibicionista chega ao ápice da diversão.

A televisão é um meio em que a publicidade mais atinge as crianças, e a dificuldade dos pais driblarem a sedução dos anúncios voltados para o público infantil gera polêmica. Em todo o mundo há instituições voltadas para combater abusos até quem defenda a proibição desses comerciais, é o caso da ONG Instituto Alana. Segundo a Presidenta, Ana Lucia Villela, “as crianças ainda não conseguem criar um juízo de valores sobre o que veem na televisão. Até os seis anos de idade elas não sabem o que é comercial ou programa.”

Todavia, para que uma propaganda possa melhor convencer uma pessoa a comprar algo do que ela não necessita, ela é, em sua maioria, formada por um texto cuidadosamente selecionado em seus componentes lingüísticos e em seus componentes visuais. Assim devemos avaliar melhor o que lhe está sendo oferecido, mas como fazer com que uma criança faça distinção quando seu super herói está a frente da própria mensagem e que até os seus primeiros seis anos de vida elas não sabem distinguir, como afirma a Presidenta do Instituto Alana em São Paulo.

Sabe-se que é muito mais fácil fixar um hábito durante a infância, já que é nesta fase que a percepção está sendo estruturada tornando-se também mais difícil modificar algo assimilado nesse período. Hoje, enquanto a criança cresce se estrutura, sua percepção do consumo como o grande prazer, gozo maior que o brincar, o aprender com a experiência, o construir seu conhecimento com o mundo da vida, das relações dialógicas, verdadeiras.

Com isso, as propagandas têm inovado sua apresentação de forma abusiva. A maneira que apelam para se obter a atenção de um possível consumidor é que prejudica a saúde, e o desenvolvimento do caráter, personalidade e auto-elevação de consumo.

A cada dia vemos nos intervalos dos programas de TVs, pontos de ônibus, lanchonetes, bancas de revistas, outdoor, concessionária de veículos, shoppings, etc.- Mas, nosso foco é a televisão -, fazendo propagandas para chamar a atenção dos consumistas e, com maior intensidade, às crianças.

O discurso é usado como veículo para vender produtos, idéias, serviços, pessoas. Além disso, tudo que as empresas precisam naquele momento é atingir seus objetos, ou seja, o de “vender”.

Lacan (2002) mostrou que o inconsciente se estrutura como a linguagem. O inconsciente é o discurso do outro, assim o desejo é o desejo do outro. Sendo dessa forma, há publicitários que, para criar suas peças, usam resultados de uma “testagem” que revela entre outros dados, desejos irrefletidos nas crianças, com estruturas levianas sobre as quais se movem. E com elas a publicidade trabalha na formulação dessas peças, numa ligação do inconsciente com o prazer que o produto irá remeter à criança.

A garotada aprende que só será reconhecida como parte desse universo, que é o imaginário construído, a partir de um hábito adquirido pelos veículos de comunicação, se adquirir esses produtos. As sensações de “pertencimento”, necessárias para a construção de sua identidade, passam pela incorporação, em seu funcionamento mental, de aspirações homogêneas e do padrão de consumo que as atende.

Precocemente a meninada é induzida a crer que os produtos de grife são sua identidade. Com essas marcas, como segunda pele, elas se sentem poderosas, meninas e meninos se tornam assim, propagandas sem custo, como outdoors ambulantes.

Fantasias de completude, idéias de poder, domínio de ter acesso ao que o outro não pode ter, do que essa criança vale é o que acontece nesta maneira de viver. A vontade fala mais alto que a necessidade.

Para alguns falta o presente, pois em seu mundo mental o objeto de desejo é o ser consumível. Observamos, por exemplo, que em algumas escolas de classe média alta, as crianças já mostram status uma com a outra.

Segundo a psicanalista Ana Olmos (2009), “as crianças, sem perceberem, consomem para dizer ao outro sobre elas próprias, para dizer para elas próprias quem são”.

Difícil é negar um pedido de uma criança, principalmente se esta é nosso filho. Tiramos dinheiro do bolso pra comprar aqueles montes de presentes, pouco úteis e que em poucos meses vão ser largados nos cantos da casa para serem substituídos por outros.

Uma emissora de TV Inglesa constatou que, por algum motivo, as propagandas veiculadas pela manhã têm impacto sobre o cérebro. As pesquisas também estão descobrindo que as propagandas podem ter efeito oposto ao que pretende, mas a verdade é que o consumo do público infantil vem aumentando.

Crianças é alvo fácil e de grande consumo, por isso, as empresas de publicidades estão investindo mais nos horários diurnos, onde o maior índice de programas voltados para esse público é bem maior. É pela manhã que aparece seu super-herói na tela e não no horário nobre.

As propagandas existem para influenciar pessoas, pensamentos e seu comportamento de acordo com o interesse do patrocinador. O segredo delas é o envolvimento emocional que elas tentam proporcionar a seu público-alvo, e aplicar estas técnicas é relativamente fácil.

Os propagandistas descobriram também, que a falta do convívio dos pais com os filhos, está diretamente ligada ao consumismo exacerbado das crianças. Eles, os pais, passam a realizar tudo o que seu filho deseja desde uma marca de celular a um delicioso hambúrguer.

Como atender então essas demandas ilimitadas se os nossos recursos são escassos? Isso mesmo, a nossa grana é curta e nada adianta ganhar um sorriso infantil se o cheque especial está no vermelho e o rotativo do cartão de crédito não mais pode ser usado, ou se o nosso plano de previdência anda de dieta há vários meses. Por outro lado recusar a compra de qualquer produto licenciados por personagens infantis acabaria dando um mal-estar muito grande com os garotos.

Dá um basta radical para esses apelos infantis não é a melhor saída. Uma sugestão do Economista Mauro Halfeld e colunista da Revista Época e da Rádio CBN “é fazer um bom acordo com as meninas e os meninos. Usar um desses produtos que eles querem adquirir como recompensa para as missões importantes, como por exemplo, um excelente resultado na escola, ou uma bela arrumação no quarto. Não estabelecer missão fácil e fugir dos prêmios mais caros”. Seria uma ótima opção para acabar com o consumismo exagerado dessa nova geração.

As crianças querem usar roupas de grife, tênis de marca, porque neles estão expressos, embora que simbolicamente, a que meio social pertence, ou que a ele deseja pertencer, tudo isso pautado no consumismo. É como se fosse uma áurea que envolve o produto. Por que nesse jogo de interesse as crianças crescem com um novo pensamento, com novas ideologias, elas deixam de “Ser” para “Ter” e passam a “Ter” para “Ser”.

Fonte

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Instituto Serrano de Conservação da Natureza


O Informativo O Charão nr 4 do Instituto Serrano de Conservação da Natureza já está disponível na versão colorida no site www.institutoserrano.org.br ou pode ser baixado aqui. Esta edição, além de posicionar nossos associados, parceiros e amigos sobre o Instituto Serrana e seus projetos, contém uma matéria sobre o VI Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação e outra sobre a Reserva Rio das Furnas, uma área particular destinada à conservação da natureza, e a parceria da mesma com uma ONG e um grupo de empresas privadas. Desejando boa leitura, pedimos a gentileza de nos ajudar a divulgar nosso informativo.

Um forte abraço
Jordan P. Wallauer
Presidente do Instituto Serrano

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Fosfateira: por que não?

(Depósito de rejeitos de uma fosfateira)

por Samantha Buglione

A fosfateira no rio do Pinheiro, em Anitápolis/SC, foi eleita como a jazida que irá abastecer de fosfato toda demanda de fertilizantes, além de prover empregos necessários para uma região carente do Estado de SC. Ou seja, uma iniciativa importante para trazer o progresso. Emprego é uma palavra mágica. Argumento quase religioso para permitir qualquer ação política que tenha consequências pouco ponderadas a médio e longo prazo.

O que não é dito, porém, é que a região onde será instalado tão benéfico empreendimento está próxima às nascentes do rio Braço do Norte. Região composta, portanto, por inúmeras famílias de pequenos proprietários que praticam a agricultura familiar e orgânica (que, por sinal, dispensa esse tipo de fertilizante e tem ótima empregabilidade).

Os municípios de Santa Rosa de Lima, Anitápolis, Rio Fortuna e Braço do Norte são responsáveis por uma considerável fração da produção hortigranjeira catarinense. Inclusive a produção de orgânicos é a que mais cresce junto ao mercado consumidor, principalmente internacional.

Apesar das iniciativas contrárias da mídia, as pessoas estão se informando cada vez mais e não é todo mundo que está disposto a consumir produtos com agrotóxicos ou que promovam o desgaste da terra e poluição da água. Além disso, para ser instalada, uma barragem será construída no rio Pinheiros e 247 hectares (equivalentes a 350 campos de futebol) de mata atlântica serão suprimidos. Isso sem falar na água necessária para o funcionamento da empresa.

A exploração da jazida de fosfato em Anitápolis tem um impacto tremendo que faz com que a suposta geração de emprego e impostos seja o menor deles. Os custos ambientais e de saúde reverterão gastos para o Estado (para todos, portanto) em que, ao fim e ao cabo, zerarão ou tornarão negativos os supostos ganhos econômicos da região.

A Agência de Proteção Ambiental Americana (EPA) tem, em seu site, informações muito úteis que não foram em nenhum momento mencionadas no relatório de impacto ambiental apresentado pela Bunge/Yara. Uma delas é de que a exploração de jazidas de fosfato similares nos EUA resultou em contaminação por radioatividade e metais pesados nos lençóis freáticos e na atmosfera. Isso porque para a produção de uma tonelada de ácido fosfórico é necessária a produção de quatro toneladas e meia de um subproduto chamado sulfato de cálcio, que vem acompanhado de altas concentrações de radionuclídeos.

Ao longo do processamento do fosfato, quantidades imensas de sulfato de cálcio são depositadas em montes que a mineradora chama de “rejeito” e que as empresas divulgam como sendo material que não será usado. Os radionuclídeos são partículas que ficam livres no ar e na poeira. Podem ser respirados pela população e ser depositados na agricultura, e lagos e rios locais.

Se a preocupação do poder público é gerar empregos, sugiro investir em isenção fiscal para a produção de orgânicos e agricultura familiar, a exemplo da recente ação do governador Luiz Henrique para ajudar os produtores de suínos do Estado.

Uma política pública responsável é aquela capaz de pensar benefícios a curto, médio e longo prazo. Não se preocupar com resíduos, lixo e uso de água, de determinada iniciativa, é, no mínimo, razão de responsabilidade civil. O custo para a saúde dos moradores da região deve ser uma preocupação do poder público, salvo se os compromissos assumidos sejam com outros grupos que não com a sociedade catarinense.

Aí o esforço em trazer uma empresa como essa para Anitápolis se explica. Empresa, inclusive, que não consegue no seu país de origem desenvolver iniciativa semelhante. Será que os noruegueses não estão interessados nas divisas possíveis da Bunge/Yara? Ou eles percebem que o custo-benefício não é tão atrativo? Nunca há uma única alternativa para resolver os problemas sociais de uma região. O inaceitável é que a alternativa eleita seja uma que traga mais prejuízos que soluções.

Fonte: Banco do Planeta

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A conta da boiada nas emissões


Se comparada a emissões de combustíveis fósseis como petróleo e gás natural, a poluição provocada pelo rebanho mundial representa 51% das emissões anuais oriundas de atividades humanas. É o que mostra uma análise divulgada esta semana por Robert Goodland and Jeff Anhang, especialistas do Banco Mundial.

Segundo eles, a contribuição dos rebanhos para o aquecimento global sempre foi conhecida, mas era freqüentemente subestimada. Também afirmam que substituir boiadas e assemelhados por “melhores alternativas” terá efeitos mais rápidos nas ações climáticas do que trocar combustíveis fósseis por energia renovável.

Em parte, porque arrotos e puns de ruminantes liberam gás Metano, 21 vezes mais poderoso que o Dióxido de Carbono quando o assunto é esquentar o planeta. No entanto, o tempo médio de vida do primeiro poluente na atmosfera é de oito anos, enquanto que do segundo é de pelo menos um século.

Goodland e Anhang também comentaram que o desmatamento de florestas para abertura de pastagens é outra fonte de emissões atrelada aos rebanhos que costuma ser esquecida. Matas estocam em média 200 toneladas de carbono por hectare, enquanto pastos apenas oito toneladas por hectare, disseram. Mais informações (em inglês) aqui.

Conforme os números divulgados esta semana pelo Ministério do Meio Ambiente, as emissões do rebanho brasileiro subiram 25% entre 1994 e 2007. Mato Grosso é o estado com o maior número de cabeças de gado, são 26 milhões.

O Eco

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Da Janela



Extraído daqui!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

É preciso comer menos carne para salvar a Terra?


Os diálogos com Fabrice Nicolino estão publicados no Le Monde, 16-10-2009. A tradução é do Cepat.

ours: De que modo a produção de carne tem consequências sobre a mudança climática?

Fabrice Nicolino: É uma questão complexa, mas dispomos de um documento oficial, institucional, um enorme relatório de 2006 da Organização para Alimentação e Agricultura (FAO), da ONU. De fato, trata-se de uma análise global de todo o ciclo da produção pecuária no mundo. Não somente dos animais, mas a sua alimentação, os meios de transporte utilizados [para levá-los aos frigoríficos]. Esse relatório estima que todo o gado mundial emite 18% de gás de efeito estufa de origem humana, e esse total é superior àquele que diz respeito aos transportes utilizados pelos seres humanos (carros, navios…).

Pharell_Arot: Bom-dia. Sendo um aficionado por carne, eu me pergunto sobre as condições a serem adotadas para conjugar os prazeres alimentares e o desenvolvimento sustentável. Quais são, para você, as precauções que um consumidor médio pode tomar imediatamente?

Fabrice Nicolino: A primeira coisa é lembrar que o consumo de carne na França foi multiplicado aproximadamente por 4 desde a segunda Guerra Mundial. Nós comemos muita carne, por razões econômicas e políticas. Eu realmente não tenho conselho a dar. Minha opinião é que podemos comer muito menos carne, comer uma carne de melhor qualidade. Pessoalmente, eu como carne, mas cada vez menos, e é carne biológica, porque nesta maneira de produzir está proibido o uso em grande quantidade de produtos medicinais e químicos.

Pharrell-Arot: Há consumos de espécies menos perigosas que outras para o planeta? A de porco, por exemplo?

Fabrice Nicolino: O pior transformador de energia é o boi. Quanto menos vegetais um animal consumir, menos o seu consumo é prejudicial para os equilíbrios do planeta. E desse ponto de vista, há uma certa hierarquia que vai do frango ao boi passando pelo suíno. O menos mal é o frango.

Herve_Naturopathe: Há um lobby francês dos frigoríficos/criadores tão importante quanto nos Estados Unidos?

Fabrice Nicolino: Realmente creio que não. Existe um lobby da carne industrial na França, poderoso, mas que não tem nada a ver com a extraordinária importância que a “carne” tomou nos Estados Unidos. Nesse país, há uma história apaixonante por trás do lobby da carne. Um notável livro, La Jungle, publicado em 1906 por Upton Sinclair, descreve o universo dos matadouros de Chicago. É um livro belíssimo.

Nos Estados Unidos, o lobby é realmente muito poderoso; secretários de Estado da Agricultura, especialmente na presidência de Reagan, eram ex-industriais da carne. Sob as Administrações republicanas, mas não apenas, há uma espécie de consanguinidade entre políticos e o lobby da carne.

Voltando ao caso da França, sim, existe um lobby da carne, que é representado pelo Comitê de Informação das Carnes, que tem relações estreitas com a indústria da carne, seguramente, mas também com o aparelho do Estado, o Ministério da Agricultura e o maior sindicato patronal de agricultores, a FNSEA.

Romain: Que alimentos podemos utilizar para substituir a carne vermelha em matéria de contribuição nutricional e de sabor?

Fabrice Nicolino: Não há resposta para esta questão… O sabor da carne vermelha é o sabor da carne vermelha. Eu não saberia dizer o que poderia substituir o seu sabor. No plano nutricional, por mais curioso que possa parecer, um grande número de estudos mostra que os regimes vegetarianos ou os regimes extremamente pouco carnívoros são os melhores para a saúde humana. Eu cito rapidamente um nome, conhecidíssimo nos meios da nutrição: é um norte-americano que se chama Colin Campbell. Ele conseguiu fazer um estudo comparativo da alimentação entre, de um lado, os cantões chineses e, do outro, os condados americanos. Um imenso estudo que durou vinte anos. Ele observa que o regime chinês, amplamente baseado numa dieta de vegetais, é infinitamente melhor para a saúde.

cocoparis: Você acha que é preciso reduzir também o nosso consumo de leite?

Fabrice Nicolino: É um debate aberto e inclusive no plano científico. O que é certo é que o hiperconsumo de leite, que caminha paralelamente à industrialização da pecuária, é muito nefasto à saúde humana. Passamos de vacas bem alimentadas que produziam, em 1945-1946, em torno de 2.000 litros de leite por ano a vacas que dão 8.000, 10.000, inclusive 12.000 litros por ano.

Está claro que quando se produz estas quantidades de leite, é preciso que esse leite seja consumido na sequência. É preciso que as pessoas o bebam. Há nisso uma lógica de ferro muito constrangedora. Se é produzido, necessita de um mercado, necessita de saída. No campo da saúde, o leite não é um alimento tão bom quanto se acreditava ou se fazia crer durante muito tempo.

Apis88: Atualmente, está claramente demonstrado que os países que se enriquecem veem o consumo de carne por habitante aumentar. Esta constatação pode ser invertida?

Fabrice Nicolino: É uma questão decisiva, uma questão chave. Existe um modelo de consumo de carne, o modelo ocidental, baseado sobre um consumo muito grande de carne. Ora, a produção de carne necessita de quantidades industriais de cereais. E as áreas agrícolas no mundo não podem ser ampliadas ao infinito. Muitos agrônomos de primeira linha se perguntam como se poderá, nos próximos anos, satisfazer este impressionante aumento da demanda de carne nos países chamados emergentes, no topo dos quais está a Índia, mas sobretudo a China, onde 200 milhões ou 300 milhões de chineses reclamam carne, porque pela primeira vez eles têm dinheiro para comprá-la e querem unir-se ao modelo ocidental.

O problema é que as terras agrícolas que permitiriam alimentar esse gado estão em falta, e parece extremamente difícil encontrar novas áreas sobre a Terra assim como está. O que eu quero dizer é que na minha opinião o modelo de consumo de carne praticado entre nós não é de maneira alguma generalizável a todo o planeta. Dito de outra maneira, me parece altamente provável que será preciso rapidamente se colocar a questão central, fundamental, do nosso modelo alimentar. Sem isso, poderemos sem dúvida passar do atual bilhão de esfomeados crônicos para talvez dois bilhões ou três bilhões em 2050.

br: Você acha que os políticos, em sua resposta à crise agrícola atual, vão levar em consideração esse fenômeno?

Fabrice Nicolino: Claramente, não, não, não e não. Vou fazer um paralelo com a situação da França em 1965. O ministro da Agricultura do General de Gaulle chama-se Edgard Pisani. Em 1965, este fez uma turnê triunfal pela Bretanha, e declarou, sob aplausos: a Bretanha deve tornar-se uma fábrica de leite e de carne da França. É muito importante, porque vemos bem que os políticos seguem, evidentemente, objetivos, mas que por definição são objetivos políticos. Ora, nós estamos em vias de falar de questões de outra natureza, que reclamam decisões muito mais refletidas, muito mais pensadas, sobre um prazo muito maior que o tempo dos políticos. Eu acrescentaria que a ecologia, a crise ecológica e tudo o que a ela estiver associado vai impor visões, pontos de vista, decisões para as quais a classe política, de todos os espectros ideológicos, da extrema direita à extrema esquerda, não está preparada.

GrandGousier: De acordo, é preciso deter esta orgia de carne, por todas as razões inventariadas em seu livro. Mas, por onde começar? Na França, quais seriam as primeiras ações a serem tomadas, os primeiros objetivos a serem fixados?

Fabrice Nicolino: Eu não estou aqui para dar lições a quem quer que seja. Mas como pessoa, eu penso que seria bom unir-se à construção de um movimento de consumidores como nunca se viu. Eu penso, na linha do que acabo de dizer sobre a classe política, que apesar do seu interesse e de sua valentia, os movimentos de consumidores que existem na França, por exemplo, a UFC-Que Choisir [União Federal de Consumidores, associação francesa de consumidores] ou 60 milhões de consumidores, exprimem em grande parte preocupações de outro tempo. Eu penso que seria útil e necessário para todos que nasça um movimento de consumidores que integre a crise ecológica, que é fundamentalmente uma crise dos limites físicos. E esse movimento, quando aparecer, provavelmente lançará ações coletivas contra a carne industrial. Para mim, este movimento passará necessariamente por formas de boicote.

Herve_Naturopathe: Ser “consommacteur” [consumidor comprometido] não seria a resposta? Consumir com reflexão e respeito…

Fabrice Nicolino: Seguramente. Mas a questão é quando e como, porque já tivemos movimentos. Eu lembro do boicote dos hormônios para os terneiros em 1980, movimento lançado pelo UFC-Que Choisir. O consumo da carne de terneiro foi dividida por 6 ou 8, era muito impressionante. E o sistema se adaptou, pois se reforçou. Portanto, a questão é realmente saber como encontrar uma eficácia frente a uma indústria que está unida por fios a todos os poderes estabelecidos, quer sejam administrativos, políticos, industriais, sindicais. É uma questão que eu aplico a mim mesmo: como tornar-se “consumidor comprometido” realmente e não apenas nos propósitos.

hadadada: No futuro, deveremos parar totalmente de consumir carne?

Fabrice Nicolino: Eu não vejo esse ponto no horizonte da minha vida. Em todo o caso, eu descobri, ao escrever o livro, que se pode viver sem comer carne. Eu realmente a ignorei. Eu creio que durante muito tempo fizemos chacota dos vegetarianos e que julgávamos, às vezes contra todas as evidências, que sua saúde era muito ruim. Alguns lobistas de que falo no meu livro lembram, para desqualificar os vegetarianos, que tanto Hitler como Jules Bonnot, o anarquista, foram vegetarianos. O que eu constatei é que se pode viver sem comer carne. Devido aos grandes equilíbrios e para enfrentar os grandes problemas que estão diante de nós, a começar pela fome, me parece vital que mudemos novamente de regime alimentar e que renunciemos a uma boa parte da carne que ingerimos a cada ano. Mas mais carne, eu não creio absolutamente nisso, eu penso que é uma questão antropológica, que leva a muitas outras. Não estou certo de que a humanidade seja realmente destinada a não mais comer carne.

cocoparis: E o que você tem a dizer aos criadores? Mudar de profissão? Tornar-se cerealistas?

Fabrice Nicolino: É uma questão terrível. Eu gosto dos agricultores. É verdade que eu prefiro os agricultores do Sul àqueles saturados de subvenções do Norte, mas o mundo da pecuária é um mundo em que encontrei um monte de gente boa, mesmo na pecuária intensiva. Mas eu quero ser direto: eu penso que a pecuária industrial está condenada. Eu penso que a França, a sociedade francesa, contraiu uma dívida com os criadores, e uma vez que tudo foi organizado em vista da pecuária industrial, seria insuportável dizer repentinamente aos pecuaristas para que mudem de profissão. Eu penso que se deveria imaginar um plano de transição, um pouco sobre o modelo do plano de transição de saída da energia nuclear na Alemanha. Poderíamos imaginar um plano de transição de 15 anos para permitir uma aterrissagem suave, para permitir a um certo número de criadores uma retirada digna, e para incentivar os mais jovens a se lançar numa pecuária mais respeitosa dos animais, dos equilíbrios naturais, e dos seres humanos que estão no final da cadeia.

Scheatt: As transformações necessárias para um modo de vida mais sóbrio são compatíveis com a organização atual da distribuição e da pecuária?

Fabrice Nicolino: Não, porque é preciso compreender que se trata de um sistema extremamente eficaz em seu registro, muito complexo, muito rodado, que exclui, por exemplo, todo direito dos animais a existir. Eu, com o risco de chocar alguns, sou muito sensível à sorte dos seres humanos, eu sou um humanista, mas considero que os animais têm direito à existência. Eu dediquei o meu livro aos animais mortos sem terem vivido. Num passado remoto, durante 8.000 a 9.000 anos, os seres humanos viveram um companheirismo com os animais, que era sem crueldade, sem violência e sem maus-tratos. Os animais davam sua carne, sua pele, sua força de trabalho, mas eles permaneciam seres vivos, sensíveis.

A indústria transformou totalmente os animais, a quem tanto devemos. Eu lembro que sem a existência dos animais domésticos, não teria havido civilização humana. Passamos a uma situação de industrialização em que o animal tornou-se uma coisa, uma mercadoria, um objeto de troca, de material. Eu creio que esta ruptura na história da nossa relação com os animais tira de nós uma parte considerável da nossa humanidade. Eu creio que esta maneira de tratar este “outro” que é o animal abre as portas para um caminho moral.

(Ecodebate, 31/10/2009) publicado pelo IHU On-line

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O Zen e o Meio Ambiente


"Verdade é o que nunca foi escondido. Se você tiver olho, dá para ver à sua frente, está tudo manifestado."
Mestre Tokuda


Não demorou muito para os brasileiros descobrirem o poder de cura das massagens, da fitoterapia e da acupuntura, advindos da medicina búdica. Vários centros e institutos de zen-budismo foram implantados, com o apoio de Tokuda, no País. Atualmente, há sedes em nove cidades e no Distrito Federal. Um desses centros está localizado em Pirenópolis, numa área onde funcionava uma pedreira. Com o objetivo de salvar a área em degradação, seguidores brasileiros do zen-budismo se uniram para angariar fundos e adquirir o terreno, de cerca de 900 hectares, com oito nascentes e oito cachoeiras.

No local, que será transformado em Reserva Particular do Patrimônio Nacional (RPPN), foi construído um mosteiro budista. “Lá será implantado um centro de estudos de medicina búdica e fitoterapia, aproveitando as riquezas naturais do Cerrado. Será incentivado o turismo ecológico e sustentável.”

Fitoterapia
Em função das dificuldades de importar as ervas medicinais provenientes da China, o monge diz que parte do terreno será aproveitado para cultivar plantas que serão utilizadas pela fitoterapia. “Temos que aproveitar o que a flora do Cerrado pode nos oferecer e incentivar os estudos das plantas da região.”

O local é bastante apropriado para instalação do instituto de medicina búdica, como é o desejo do monge. Contato com a natureza e calma para se fazer meditações contribuem para a cura integrada do corpo e espírito, segundo ele.

Sobre encontrar a paz interior, o monge Tokuda afirma que não é preciso ser uma pessoa iniciada nos estudos do zen-budismo, basta atitudes simples, como, por exemplo, inspirar profundamente pelo nariz durante momento tenso e expelir o ar pela boca. Ao fazer isso cerca de quatro vezes, é possível se acalmar instantaneamente.

Outras atitudes nada complexas ajudam a encontrar purificação e serenidade, segundo o monge. Durante passeio ecológico, por exemplo, ele sugere ficar debaixo da queda de uma cachoeira, permitindo que águas batam sobre o corpo, ou prestar atenção no silêncio de uma caverna escura. Outro conselho do monge ainda mais simples é observar o pôr-do-sol ao lado de pessoas queridas, beleza que, segundo o mestre, faz bem a qualquer um.

Fragmento do artigo Saúde para corpo e alma!

Anitápolis, SC: a batalha contra a fertilizadora continua


Anitápolis (SC) é uma cidade com 3500 habitantes que vivem, principalmente, da agricultura. Um projeto prevê a instalação na cidade de uma fertilizadora mantida por empresas como Bunge e Yara Brasil e, com isso, afetaria, ambiental e socialmente, 21 municípios da região. Em junho deste ano, conversamos com dois representantes da ONG Montanha Viva, que tem empenhado uma luta contra esse projeto.

Entendemos que seria muito mais interessante que o dinheiro fosse aplicado em projetos de fosfato, mas utilizando esterco de porco, porque a agressão ambiental seria muito menor”, apontou o advogado da instituição.

A IHU On-Line voltou a conversar com Eduardo Bastos porque, recentemente, foi expedida uma liminar que visa barrar o projeto para que importantes pontos contemplados por ele sejam revistos. “Nós analisamos o Estudo de Impacto Ambiental do governo federal e o próprio estudo realizado pelo estado de Santa Catarina. Com base nisso, concluímos que muitos são os problemas do licenciamento, e que a competência para licenciar a atividade é do IBAMA e não de outros órgãos, como tem sido feito. Isso em razão da complexidade do dano que pode ser causado por uma eventual poluição, seja ela hemisférica, química ou hídrica, no trajeto em que vai ser desenvolvido os trabalhos da fertilizadora”, disse na entrevista que concedeu por telefone.

Confira a entrevista.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Especialista recomenda vegetarianismo contra mudança climática


O mundo deveria se tornar vegetariano para combater com sucesso a mudança climática, já que o efeito estufa do gás metano liberado por vacas e porcos é 23 vezes mais potente que o do dióxido de carbono, segundo uma das maiores autoridades britânicas no assunto.

Em declarações ao jornal “The Times”, lorde Stern, autor de um relatório sobre a economia da mudança climática encomendado pelo Governo do Reino Unido, disse que a pecuária destinada ao consumo de carne representa “um desperdício de água e contribui poderosamente para o efeito estufa”.

Segundo números da ONU, a produção de carne é responsável por pelo menos 18% das emissões globais de CO2 no planeta. Para esta liberação, contribuem tanto a destruição de florestas para a pecuária extensiva como a produção de ração para animais.

A ONU também já disse que, caso a tendência atual se mantenha, o consumo mundial de carne poderá dobrar até 2050.

Com base nessas informações, Stern propõe que a cúpula sobre mudança climática de Copenhague (Dinamarca), marcada para dezembro, sobretaxe o preço da carne e de outros alimentos que, durante seu processo de produção, são responsáveis pela liberação de uma quantidade significativa de gases estufa.

O especialista britânico, que é vegetariano, prevê ainda que o hábito das pessoas em relação ao consumo de certos gêneros alimentícios mudará até que comer carne se tornará algo inaceitável.

“Acho que é importante as pessoas refletirem sobre suas ações, e isto também tem a ver com o que se come”, diz lorde Stern, ex-economista do Banco Mundial e atual professor da London School of Economics.

Ainda segundo o especialista, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deveria participar pessoalmente da cúpula de Copenhague, já que a liderança americana é extremamente necessária para alcance de um acordo significativo.

“Minha mensagem ao presidente Obama seria a seguinte: ‘Vá a Copenhague, participe com um espírito de colaboração e leve essa mensagem ao povo americano’”, declarou o cientista ao “The Times”.

Fonte

domingo, 25 de outubro de 2009

Greenpeace em Florianópolis


Entre nessa onda!

A Onda Sensorial, instalação montada pela campanha de Oceanos do Greenpeace, estará em Florianópolis, trazendo à reflexão a importância de se proteger nossos oceanos e o que podemos fazer para ajudá-los.

Participe! Leve seus amigos e familiares!

Data: 22 a 25 de outubro de 2009 (quinta a domingo)
Horário: quinta a sábado das 10h às 22h e domingo das 12h às 21h
Local: Floripa Shopping
Rodovia SC-401, 3116 — Saco Grande Florianópolis, SC - (48) 3331.7000